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8 de abril de 2015

Conventionis: Capítulo 2: Sobre a garota de cabelos castanhos




 Acho que estou finalmente entendendo a situação em que me meti.

 Faz algumas horas desde que entrei no Embrenho Verde. Não encontrei nenhuma alma viva desde então. Incrível como todos aqueles recrutas conseguiram disparar na minha frente, mas minha maior preocupação é com o que está atrás de mim.

 Faz algum tempo desde que parei de sentir o cheiro de fumaça dos ataques, mas isso não muda a realidade. Os seres de Zemopheus estavam invadindo os territórios da Aliança, matando e destruindo tudo o que encontrarem no caminho. Me lembro da oficial que me mandou ir para o oeste avisar todo vilarejo entre aqui e o rio Solomon. Muito provavelmente ela já está morta. E isso me apavora.

 De vez em quando escuto coisas na floresta. Parecem grupos andando pela mata, conversando e marchando. Pode ser apenas a minha mente, mas isso não me torna mais tranquilo. Tenho que chegar em Steamunk. Nunca deveria ter saído de lá.

 Dalan parou a caneta para escutar o ambiente ao redor. Estava em uma minúscula clareira, cercado por árvores baixas e densas. O terreno era desnivelado, e um pequeno barranco coberto de raízes e musgo lhe dava proteção do norte. Até então estava escrevendo em cima de um tronco caído, se ajeitando na grama fofa com a camisa cinza tão suja quanto a calça negra. Agora, se mantinha quieto e tenso.

 Após alguns segundos de silêncio, soltou o ar que estava preso. Toda aquela situação iria lhe deixar maluco em alguns dias, concluiu. Não podia passar mais de uma hora caminhando sem achar que havia um grupo de orcs ao seu lado. Podia ouvi-los em sua mente, tal qual aquele que tentou matá-los na estrada.

 Mas pelo menos isso ocupa minha mente, concluiu triste enquanto recolhia os papéis e a caneta. Não poderia deixar sua mente vagar sozinha, ou ela o levaria para casa. Para seus erros. E para Diana. Dalan sentiu o estômago se retorcer e o pescoço esquentar. Era melhor voltar aos orcs sanguinários, pensou ao deitar na relva.

 Esperava que depois de um dia tão cheio, o sono viria rapidamente. Como estava errado. A adrenalina e as tribulações internas o fizeram rolar na grama, se contorcendo em busca de uma posição ideal para dormir. A floresta escura o abraçava, lhe dando todas as condições para adormecer, mas nem elas eram capazes de aquietar sua mente. Saco, praguejou com o pescoço quente enquanto tentava se livrar mais uma vez da lembrança de Diana. Que bosta. Talvez fosse melhor andar um pouco para buscar o sono, pensou.

 Assim que abriu as pálpebras, no entanto, ficou de cara com dois grandes olhos castanhos o observando.

 - CACETE! - Gritou, rolando para longe em pavor. Uma voz feminina também gritou, e alguém caiu perto do rapaz. Ele tropeçou para se levantar, dando alguns passos para trás. À sua frente, uma garota estava caída de costas na grama. Seus longos cabelos castanhos estavam por cima do rosto, quase cobrindo os olhos grandes e negros, o nariz curto e a boca um tanto quanto grande. Ela assoprou para afastar as mechas, encarando o outro com assombro e irritação.

 - Qual é o seu problema? - Questionou, ficando de pé e espanando o vestido branco. Era um pouco mais baixa e magra do que Dalan, que ainda estava com o coração a mil.

 - O meu problema? - Perguntou agitado, dando um passo à frente. - Quem é que fica... quem é que fala... quem é você? - Terminou sacudindo as mãos.

 - Eu sou... ei! Não vou dizer meu nome para estranhos! - Respondeu a garota com o rosto sério, apontando o dedo para o outro.

 Dalan por sua vez a olhou incrédulo. - Você estava em cima de mim enquanto eu dormia! - Soltou com a voz aguda. - Quem é o estranho aqui?

 - Agora você está sendo rude. - Retrucou ela de bate-pronto, juntando os dedos das mãos. O rapaz sentiu uma veia na têmpora pulsar, mas inspirou profundamente e soltou o ar procurando se acalmar. Não ganharia nada com uma discussão.

 - Meu nome é Dalan. Dalan Kault. - Disse ele, levantando a cabeça para a outra.

 - Legal. - Respondeu a garota, juntando as mãos atrás das costas e balançando ligeiramente o corpo. Os dois ficaram em silêncio sepulcral, interrompido apenas pela ocasional lufada de ventos nas folhas das árvores. Dalan continuava sorrindo, aguardando, até que não conseguiu mais se controlar.

 - E o seu nome é...? - Perguntou, ainda mantendo o sorriso.

 - Ah, eu disse que não ia dizer meu nome para estranhos. - Soltou, dando de ombros. O rapaz sentiu o rosto se preencher de vermelho.

 - Só que eu disse meu nome pra você, não foi? - Disse por entre os dentes, ainda tentando manter uma expressão agradável mas só conseguindo parecer um lunático.

 - Só porque você disse seu nome, não significa que tenho de dizer o meu. - Retrucou ela, os olhos grandes piscando deliberadamente. - Sua mãe não te disse dessas coisas não?

 - O.K, eu desisto. - Soltou Dalan, dando as costas antes que explodissem em cima da garota.

 - Não, espera! - Se adiantou ela, correndo até ficar de frente com o rapaz. Começou a encarar seu rosto, os olhos esquadrinhando cada poro de sua pele. Dalan deu um passo para trás inconscientemente, se sentindo nervoso com aqueles grandes globos castanhos.

 - Ah... algum problema? - Perguntou ele. A garota ajeitou o corpo, fechando os lábios em um beicinho.

 - Achei que você era alguém que eu conheço. Tipo, seria muito estranho se fosse, mas quis verificar por via das dúvidas. - Ela se inclinou um pouco para frente, dando mais uma olhada. - Só pra conferir, você conhece um homem chamado Emanuel Vertreit?

 Dalan nem teve tempo de torcer o rosto quando um som de algazarra surgiu do outro lado. Os dois se viraram para encarar a origem do barulho, os rostos assustados. A floresta parecia vazia, mas definitivamente havia alguém além da clareira. Ou muitos alguéns.

 As pálpebras da garota se abriram, e um sorriso aliviado preencheu seus lábios. - Eles chegaram. - Soltou baixinho antes de correr para subir o barranco de raízes. Dalan por sua vez ficou parado por alguns segundos, seu cérebro fazendo as contas. E de repente sua expressão se tornou apavorada.

 - Ei, ei, EI! - Tentou chamar a outra, mas ela já estava correndo para as árvores. O rapaz hesitou brevemente, mas saiu em disparada atrás dela.

 Não haviam rotas na floresta fechada, portanto ele se viu obrigado a saltar por cima de troncos tortos e escorregar entre barrancos úmidos, sempre em uma correria desenfreada. A garota continuava muito à frente, para desespero de Dalan. Ela está indo direto naqueles orcs, pensou apavorado. Tinha certeza de que eles haviam chegado, e chamar a atenção deles era a pior coisa que qualquer um podia fazer, mas a outra não sabia daquilo. Tinha que pará-la a qualquer custo.

 E sem aviso, algo brilhou entre as folhas. O rapaz virou a cabeça para ver o que era aquilo, e seu coração parou no meio da corrida. A luz da lua refletia na lâmina de um machado, iluminando fracamente o rosto quadrado e verde de um orc que caminhava na escura mata fechada. Eles já estavam ali, foi o primeiro pensamento que se foi ouvido em sua mente. E com ele veio o medo. Medo tão primal que lhe serviu como combustível para disparar, agarrando a garota e rolando para a segurança de uma moita.

 - O que está... - Tentou dizer ela, mas Dalan rapidamente colocou a mão em sua boca. Ela tentou lutar, mas paralisou ao ver a criatura que se aproximava. Um orc de peito nu adentrou a clareira, encaixando casualmente o machado em suas costas. Ele olhou um pouco curioso para a direita, um pouco acima de onde os dois jovens estavam deitados tremendo de pavor, e ficou com o olhar parado.

 Atrás dele, vinha o pesadelo. Uma dúzia de orcs saíram das árvores, caminhando e ultrapassando o primeiro. Este continuou observando até a segunda leva de seres chegar, e os acompanhou um pouco desinteressado. E atrás deles, vinha a terceira leva. Em pouco tempo haviam mais orcs do que árvores.

 Dalan conseguia sentir o coração se encolher a cada passada da procissão, temendo que ela nunca terminaria. Eram muitos. Desesperadamente muitos. Continuava abraçado à garota, que se mantinha imóvel. Achou que conseguiu ouvir um gemido fraco quando um pé verde destruiu a grama a centímetros deles, mas poderia ser sua imaginação enlouquecendo.

 Os dois se mantiveram colados até a multidão passar, e mesmo depois do último orc sumir permaneceram deitados até muito depois do som de passos ter sumido. Havia apenas o vento lufando nas folhas quando o rapaz se levantou, sentindo os joelhos tremendo para aguentar seu peso.

 - Acho que... - Antes de terminar a frase a garota rapidamente se pôs de pé e correu para as árvores, o rosto tapado pelos cabelos. - Ei! - Voltou a persegui-la, mas a adrenalina já havia se exaurido pelo pavor recente. Se livrou dos arbustos e dos troncos até chegar em uma nova clareira. Parou na beira, assimilando a cena.

 Parecia que havia ali pequena habitação ao ar livre, mas isso fora antes dos orcs chegarem. Agora só sobravam ruínas. Móveis de madeira jaziam em pedaços no chão, e os restos de uma fogueira se espalhavam ainda quentes pela grama. Um colchão de penas parecia ter sido alvo de tiros, bem ao lado de um baú de brinquedos pisoteado. A cabeça de uma boneca de pano o encarava, seu sorriso contrastando com o ambiente à sua volta. E, no meio de tudo isso, a garota de cabelos castanhos estava de joelhos no chão. Dalan se aproximou, cauteloso.

 - Oi. - Começou ela com a voz embargada. Seu rosto estava cheio de lágrimas, embora fosse aparente o esforço em contê-las.

 O rapaz olhou ao redor, notando os três colchões. Algo desceu gélido por seu estômago. - Mais alguém morava aqui? - Perguntou enquanto se ajoelhava ao lado da outra.

 - Meus pais. - Respondeu a garota, e seu rosto se torceu na tentativa fracassada de evitar novas lágrimas. - Eles... eles tinham saído. Faz algum tempo. Me pediram para cuidar da casa. - Suas mãos trêmulas agarram a grama no chão, arrancando ligeiramente alguns tufos. - E disso aqui.

 Dalan se aproximou, vendo um pequeno baú de madeira lixada. Estava vazio. - Meu... pai me disse uma vez que a vida dele tinha sido salva por uma esmeralda. - Disse a garota, limpando o rosto com as costas da mão. - Antes dele... antes dele sair ele me disse pra cuidar dela. Foi a única coisa que ele pediu... - Não conseguindo aguentar mais, ela começou a chorar copiosamente. O rapaz, um pouco sem jeito, começou a esfregar o ombro dela.

 - Escuta... - Começou desconcertado. - Eu não acho que é seguro continuar aqui. Provavelmente mais orcs estão vindo. - A garota o olhou incrédula através da tristeza.

 - Mas estamos a oeste da Fronteira. - Soltou com a voz aguda.

 - Eu sei. - Dalan balançou a cabeça, fitando a cabeça da boneca. - Só que você viu hoje. Isso não significa mais nada. - Engoliu em seco, absorvendo a gravidade das palavras que havia dito. - A Aliança está montando uma linha secundária, um pouco depois do rio Solomon. Eu acho melhor você ir pra lá.

 A garota não reagiu, apenas continuou encarando o baú vazio. O outro continuou acariciando desajeitadamente o ombro dela por alguns segundos antes de se levantar. Se empertigou, esperando alguma reação da outra. Não houve. Ele aguardou mais algum tempo antes de dar as costas e seguir por onde tinham vindo. Parte dele queria esperar, mas a presença de orcs estava lhe dando urgência. Seu trabalho era avisar as pessoas no caminho de Steamunk. Havia feito isso, embora sentisse a necessidade de algo mais.

 Conflituoso, chegou até a clareira onde havia tentado dormir. Os papéis continuavam ali, intocados, mas o sono havia sumido. Recolheu suas coisas e seguiu para o oeste, achando uma trilha estreita no meio das árvores.

 Os minutos se passaram, pontuados pelo som constante dos passos na grama alta. Dalan havia acabado de coçar os olhos quando ouviu algo atrás de si.

 - Amanda Vertreit. - Virou para trás, avistando a garota de cabelos castanhos de antes. Ela ainda estava com os olhos vermelhos e inchados, mas os contrastava com um sorriso nos lábios.

 - Esse é o seu nome? - Perguntou o rapaz, deixando que a outra se aproximasse. - Pensei que não dissesse ele para estranhos.

 - Bem, se vamos passar tanto tempo juntos, acho melhor não sermos estranhos, não? - Disse de forma descompromissada. Um calafrio passou pelo corpo de Dalan.

 - O que quer dizer com isso? - Perguntou nervoso. A garota o ultrapassou e virou para trás.

 - Ué, eu tenho que seguir aqueles orcs pra recuperar a esmeralda do meu pai, não é? - Amanda inclinou a cabeça um pouco para o lado. - E você disse que estavam fazendo uma linha secundária um pouco depois do rio Salão, não é?

 - Solomon. - Corrigiu o outro.

 - Isso mesmo. E eu não sei o caminho até lá. - A garota encolheu os ombros e deu de costas, continuando a trilha.. - Então vamos juntos!

 Dalan pensou em protestar, mas a exaustão o impediu. Talvez andasse com ela um pouco, concluiu. Não parecia ser capaz de afastá-la no momento.

 Assim que deu o primeiro passo para acompanhá-la, sentiu um novo calafrio subir pela espinha.

Atos Finais