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9 de março de 2015

Os últimos dias de minha adolescência: Prólogo


OS ÚLTIMOS DIAS DE MINHA ADOLESCÊNCIA

Prólogo



 Nova Mahou começava a se preparar para a vida noturna, com pequenos pontos de luz pipocando nos arranha-céus enquanto o sol mergulhava entre as montanhas distantes. Carros buzinavam e pedestres se apressavam nas ruas amplas, apressados em seu balé diário. Aos poucos o cinza monótono que cobria a cidade durante o dia ia dando lugar à cores mais fortes, indicando que festas e eventos eram aguardados naquela noite.

 Toda essa agitação tentava invadir um pequeno quarto em um prédio residencial um pouco afastado do centro. As cortinas e a janela fechada se esforçavam em filtrar a maior parte da algazarra, que esvaía onde era possível. Contudo, o quarto permanecia escuro. Os contornos de um armário, uma escrivaninha e uma cama conseguiam ser vistos, na qual uma figura se cobria no meio dos grossos edredons, deitada de barriga para cima e braços por cima das cobertas. Seu rosto era visível na meia-luz, revelando curtos cabelos negros que se esparramavam no travesseiro, assim como um rosto em formato de coração com a boca fina e nariz curto. Suas mãos pequenas estavam entrelaçadas, ansiosas mesmo no sono.

 PEEN, PEEN, PEEN.

 O alarme na escrivaninha começou a apitar, cobrindo o aposento em luz verde. A garota na cama imediatamente abriu os olhos castanhos e levantou o torso, procurando se sitiar. Virou a cabeça para o despertador e após alguns segundos arrancou as cobertas de cima de si, que se esparramaram pelo chão. Ficou de pé e ajeitou a camisola rosa e fina que revelava a extensão de seu corpo baixo e magro. Desligou o alarme e caminhou até a janela, onde abriu as cortinas com vigor. A cidade lá fora a agraciou com suas luzes e cores, e ela permaneceu fitando Nova Mahou por mais alguns segundos antes de se dirigir ao banheiro. 

 Ligou o interruptor e fechou a porta, e o som da água caindo ecoou. A meia-luz iluminava a escrivaninha ao lado do banheiro, assim como um quadro à frente. Nele havia um papel meio amassado, porém pregado com carinho. Era uma carta.

 Prezada senhorita Alice Avaleen

 É com prazer que informamos que a senhorita passou em nossos exames de admissão.

 Nós, tecnólogos, contratamos apenas os melhores. Portanto, sinta-se extasiada com essa conquista em sua vida.

 Nos encontramos em...

 Haviam algumas fotos acompanhando aquela carta, sendo que uma bloqueava o restante do conteúdo do papel. Era uma imagem de Alice em um ambiente aberto e apinhado, segurando um papel caprichosamente enrolado em uma das mãos enquanto usava uma beca negra e um capelo desajeitado na cabeça. Um rapaz mais velho a abraçava, e os dois sorriam abertamente.

 Mais abaixo havia outra foto, dessa vez de uma Alice mais jovem. A garotinha parecia ter cerca de cinco anos, e era envolta pelos braços de uma mulher de cabelos negros e longos, extremamente parecida com a criança que segurava. De todos os papéis e imagens pendurados no quadro, aquele parecia o mais velho e mais cuidado.

 A porta do banheiro se abriu, e dela saiu a garota enrolada em uma toalha rosa. Enxugava o cabelo com força, jogando gotas d'água no carpete cinza, até se deparar com o espelho. Parou o movimento, encarando profundamente seu rosto. Parecia pálido e apreensivo, percebeu, com os olhos arregalados e queixo travado. Alice rapidamente bateu na moldura, engolindo em seco.

 - Vai dar tudo certo hoje. - Disse a si mesma, e respirou fundo antes de continuar. - É só um trabalho de rotina. Não tem o que estragar. - Seu reflexo não parecia completamente convencido, mas havia uma melhora. Se virou agitada e continuou até o armário, onde um uniforme já estava separado. Era um traje longo e ligeiramente apertado, coberto de azul e com linhas laranjas nas articulações. Botões cobriam o peito, e um quepe estava pendurado no cabide mais próximo.

 Alice desenrolou a toalha e começou a se vestir apressada. Já estava terminando de abotoar a camisa quando percebeu que não estava usando nada por baixo. Praguejou e tirou a roupa, vestindo uma camiseta branca. Assim que terminou de colocar o uniforme, notou que a calça estava ao contrário. Xingou ainda mais alto e tentou tirá-la, mas a pressa a fez cair no chão.

 - MERDA! - Gritou do chão, onde ajeitou as roupas. Voltou a ficar de pé bufando e corando, e puxou o quepe com violência. Correu até o banheiro e procurou se acalmar para botar a maquiagem. Seu coração já batia com violência, e acabou errando o lápis de olho duas vezes.

 Disparou para fora do quarto assim que terminou, descendo as escadas sujas e apertadas correndo. Havia chegado no térreo quando percebeu que havia esquecido a bolsa. - AH, SACO! - Gritou para o alto, fazendo com que o porteiro a encarasse com relativa curiosidade. A garota correu para o elevador e martelou o botão, mas se cansou em três segundos e voltou a subir as escadas, deixando que o homem voltasse à sua televisão. Nela, um jornalista discursava enfático.

 Dez pessoas foram feridas mais cedo em um conflito entre manifestantes tecnólogos e yullianos na cidade de Báscara. Testemunhas oculares disseram que uma passeata yulliana foi recebida com pedras e gás de pimenta ao atravessaram a Avenida Lennon.

 Esse é o terceiro conflito no mês entre militantes dos dois grupos. O porta-voz dos yullianos, Calen Dorush, condenou agora há pouco as atitudes de violência de seus seguidores, mas alertou que o recente surto de embates foi alimentado pela polêmica decisão do presidente Barques de priorizar os investimentos governamentais em pesquisas tecnológicas, decisão que favoreceu as finanças dos tecnólogos em detrimento aos estudos biológicos dos yullianos.

 Dorush não respondeu às acusações de instalações secretas de seu grupo, feitas pelo tenente Dalahan semana passada, e negou receber investimentos de terceiros.

 - Saco, saco, saco, saco, saco. - Repetia Alice enquanto descia as escadas, fazendo barulho suficiente para cobrir o volume da televisão. Ela tentou manter a compostura e diminuiu o passo, andando apressadamente enquanto ajeitava o quepe. 

 Saiu do prédio e encarou a algazarra nas ruas amplas, cobertas de carros buzinando e um engarrafamento que se estendia até onde a vista alcançava. Os prédios altos já brilhavam como painéis de computador, tapando a visão do céu escarlate. A garota desviou dos pedestres apressados e desceu uma escadaria na calçada, chegando ao sujo metrô. 

 A espera a fez se agitar impacientemente, e quando o vagão chegou ela o invadiu sem sequer esperar que as pessoas saíssem. Se colocou perto das portas e começou a verificar o relógio insistentemente, alheia aos olhares irritados dos outros passageiros. Um deles carregava um rádio que chiava as notícias do dia.

 ... e para terminar essa seção, Alexander Frey confirmou sua presença no oitavo encontro de jovens tecnólogos hoje à noite. Resta saber se o famoso bilionário sabe das recentes inquietações que seu grupo está envolvido, e se está preparado para possíveis protestos.


 E assim termina nosso giro diário, pessoal. Tenham uma excelente noite enquanto nos despedimos com o último sucesso de Martha Gonoway, Agulhas no Palheiro. Até amanhã.

As músicas começaram a se seguir no rádio, mas antes que a terceira chegasse ao clímax Alice já havia saído, subindo apressada as escadas rolantes. Saiu para a rua já escura e correu por duas quadras antes de chegar no hotel Hyath, uma bela construção de vinte andares e emoldurada com elevadores panorâmicos. Um guarda mal-encarado bloqueava a entrada, e a garota se aproximou já ofegante.

 - Alice Avaleen. - Arfou enquanto tirava a identificação do bolso para em seguida se apoiar nos joelhos. - Sou membro da segurança noturna do senhor Frey. - O homem a encarou mal-humorado, mas acenou positivamente com a cabeça. Aliviada, ela entrou no saguão para imediatamente se jogar em um sofá. Consegui chegar, pensou exausta. Não tinha estragado tudo. Ufa.

 Deitou a cabeça no encosto e fechou os olhos, sem perceber o homem que se aproximava. Ele era alto e possuía cabelos curtos e castanhos, assim como olhos grandes, um rosto sereno, ombros largos e o mesmo uniforme da garota. Parou ao lado do sofá e bateu três vezes no relógio que usava no pulso direito. - Duas horas adiantada? Algo me diz que você está nervosa.

Alice abriu os olhos e virou a cabeça para encarar o rapaz ao seu lado. Franziu o cenho. - Melhor me prevenir do que remediar, Brendan. Não concorda?

- Há um linha fina entre prevenção e paranoia. - Respondeu Brendan, sorrindo enquanto se sentava na cadeira à frente. - É só um serviço de guarda, garota. Vai ser simples.

 - Eu sei. - Se apressou a dizer a outra, juntando as mãos e as balançando nervosamente. - Eu sei, é que... - Suspirou fundo. O companheiro se levantou para sentar ao seu lado.

 - Ei. Ei. - A garota o encarou, um pouco desconfiada. - Eu sei que você está nervosa por ser seu primeiro dia, mas tem que se acalmar. Só vamos precisar acompanhá-lo do saguão até o quarto. E fim.

 Alice soltou um risinho. - Se eu disser que vou ficar bem, você para de me tratar como uma criança?

 - Eu não trataria uma pessoa que sabe usar uma arma como criança. - Soltou Brendan, levantando as palmas das mãos. - Apenas preste atenção no que vou dizer. Hoje vai ser um dia tão comum que você vai ter até dificuldades em se lembrar dele.

 A garota sorriu um pouco contrariada enquanto Brendan se levantava. Ele deveria ter razão. Era apenas um dia normal.

 Pensava nisso enquanto um helicóptero cruzava a cidade, alto o suficiente para não ser notado no céu escuro. Haviam duas pessoas dentro dele, uma jovem de cabelos azuis espetados que pilotava a nave e seu companheiro, um rapaz com uma trança longa e escura. Ele abriu um pacote de salgadinhos, distraído.

 - O controle me confirmou que vamos ter que aguardar mais um tempo, Koga. - Disse a garota, alterando minimamente a trajetória do helicóptero. - Acho que estará livre daqui a duas horas.

 - Estou de boa, Águia. - Respondeu o outro, mordiscando um triângulo laranja. - Não precisa se preocupar. O trabalho de hoje vai ser bem fácil.

 A garota acenou negativamente a cabeça. - Continue achando isso e eu te deixo sem apoio aéreo. Entendeu?

  - Ai. - Se encolheu Koga. A nave se deslocou em uma curva fechada para a direita, sumindo entre as nuvens.

 Algum tempo depois, Alice e Brendan estavam em suas posições, aguardando ao lado da entrada do hotel. Haviam coldres em suas cinturas agora, e o cabo de pistolas se destacavam com um preto fosco que também cobria seus cassetetes. Conseguiam ouvir os fotógrafos lá fora se agitarem, e os sons não contribuíam para a acalmar a garota. Ela subia e descia nas pontas dos pés, agitando nervosamente as mãos.

 - Vai dar tudo certo. - Dizia baixinho para si mesma. Brendan a olhou de relance, apenas para sorrir e balançar a cabeça. - É só levá-lo até o quarto. Nada de mais. Nenhum problema. Um cachorro poderia fazer isso. Eu também posso. Excelente. Tudo vai dar certo. Eu--

 - Frey chegou! - Disse um jornalista do lado de fora. Alice imediatamente ficou branca para em seguida engolir em seco. Tudo bem, pensou por cima da ânsia repentina de vômito. É agora. Ajeitou o quepe na cabeça e assumiu postura oficial, com os braços colados ao corpo rígido. Vai começar.

 No topo do prédio, um helicóptero se afastava como uma sombra, e mais abaixo uma figura solitária caminhava por um corredor vazio, assobiando tranquilamente. A tensão no ar começava a se afiar, mas não estava alta o suficiente para ser notada. A não ser talvez por Alice, que por sua vez achava que aquilo vinha de si mesma.

 Um carro parou do lado de fora, e as câmeras dos fotógrafos começaram a pipocar. Alice se empertigou. Vamos lá, pensou.

 É hoje o dia em que minha vida muda.

Atos Finais