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18 de março de 2015

Então... Vamos falar da "polêmica" capa da Batgirl? [ATUALIZADO]



Olá, leitores imundos! O titio Walter resolveu dar uma folga nas suas obrigações diárias (comer a mãe de vocês) pra comentar um pouco sobre a nova polêmica da vez no mundo nerd. Como vocês já estão carecas de saber, caso contrário...




..., a DC Comics fará uma série de capas alternativas do Coringa em junho. O destaque ficaria por conta do desenho especialmente feito por Rafael Albuquerque para Batgirl #41, fazendo alusão a um acontecimento clássico dos quadrinhos, presente em Piada Mortal , de Alan Moore e Brian Bolland.



Qual o problema então? Pois é, bastou o cabra postar em seu instagram o desenho pra uma horda de gente questionar o trabalho, alguns inclusive acusando o artista de incitar a cultura do estupro. No final desse merderê todo, o artista pediu a DC que retirasse a capa dessa edição, através de um comunicado oficial...

Minha capa variante da Batgirl foi criada para homenagear um quadrinho que eu admiro muito e sei que é uma das favoritas de muitos fãs. A Piada Mortalfaz parte do cânone da personagem e, artisticamente, não pude evitar retratar a traumática relação entre Bárbara Gordon e o Coringa. Para mim, era uma capa assustadora que trazia algo do passado da personagem. Mas, como ficou claro para outros, toquei em um ponto fraco. Eu respeito essas opiniões e, apesar de poder-se discutir se elas são certas ou erradas, nenhuma deve ser descreditada. Minha intenção nunca foi machucar ninguém com minha arte. Por esta razão, recomendei à DC que a capa fosse cancelada. Estou muito feliz porque eles escutaram as minhas preocupações e não a publicarão em junho, como anunciado anteriormente.

Leitores divergiram sobre a capa, inclusive este final de semana passado ocuparam as redes sociais com hashtags como #changethecover e #dontchangethecover. De uma lado, um grupo que pede a mudança da capa, tanto pelo motivo apresentado acima quanto a incongruência com o tom atual da série, sucesso de público e crítica voltado para o público feminino juvenil. Já a outra parte pedia que a DC não mudasse a capa se posicionava, de modo geral, contra o excesso de correção política dos chamados "SJW" (sigla pejorativa para os defensores de minorias e direitos humanos nas redes sociais, os "social justice warriors"), conhecido aqui no Brasil de forma depreciativa como o "patrulha do politicamente correto".
O debate não se restringiu apenas entre os leitores, diversos quadrinistas se posicionaram das mais variadas formas, seja a favor ou contra a retirada da capa, como podemos ver abaixo...


Eu não posso perder meu tempo explicando o que é “censura”. Especialmente falando a partir do maldito Twitter. Sim sim, todo mundo de repente é mais esperto que O PRÓPRIO ARTISTA. Cara, eu odeio quadrinhos nesta noite. Mal posso esperar para começar outro dia. (Mark Waid – Reino do Amanhã, Capitão América, Flash, Irredeemable)

Você não venderia A NOVIÇA REBELDE com um pôster que fosse parecido com O ILUMINADO ou vice-versa. […] Eu não sei se concordo [se isso mata a arte ou não], mas a questão tem se polarizado. Neste momento, acho que muitas pessoas não se importam mais com o que está na capa, desde que a turma deles derrote o outro grupo. (Kurt Busiek – Astro City, Conan, Vingadores, Thunderbolts)

Caras, vocês sabem mais sobre o que está acontecendo com a Barbara do que eu. Eu sei principalmente sobre a bunda do Homem-Gato. (Gail Simone – Aves de Rapina, Sexteto Secreto, Red Sonja)

Rafael Albuquerque, se eu OUTRA VEZ pegar você cancelando uma boa arte, eu vou chutar seu traseiro ;) (Rags Morales – Action Comics, Crise de Identidade, Gavião Negro)
Rafael Albuquerque é um homem incrível. Sua reação compassiva, quando ele poderia apenas ter lavado as mãos, me faz estimá-lo ainda mais. (Marguerite Bennett – Angela: Asgard’s Assassin, A-Force, Sleepy Hollow, Lois Lane)





Arte feita por Ray Dilon em apoio a Rafael Albuquerque.

Então... Vamos falar da "polêmica" capa da Batgirl? Como disse acima, a Piada Mortal é considerada um dos maiores marcos dos quadrinhos, ao lado de obras como O Cavaleiro das Trevas, do Frank Miller e Watchmen, do próprio Alan Moore, mostrando que uma mídia antes considerada coisa de criança poderia render ótimas histórias, atraindo também adultos. Na trama, Bárbara Gordon (a identidade secreta da heroína) leva um tiro do Palhaço do Crime, consequentemente ficando paraplégica. Na HQ fica implícito que rolou algo a mais, como estupro, visto que o criminoso a despe e tira fotos dela, com o intuito de mostrar ao Comissário Gordon (que estava presente no local quando isso aconteceu) a sua insana tese de que basta apenas um dia ruim para as pessoas enlouquecerem...



Porém, seria achismo demais acreditar que todos que criticaram a arte de Albuquerque leram a história! Ao meu ver, a interpretação do estupro na capa foi equivocada, no mínimo exagerada. Além disso, se fosse a intenção de fato da obra, o que acho improvável, não exaltar e sim criticar a cultura do estupro, não haveria motivo para tanto protesto. Foi uma simples falha na interpretação do conteúdo. Mas há de ressaltar que o título da Batgirl recente era destinado pra um público juvenil, ou seja, a capa de fato era destoante. Entretanto, os argumentos da contraparte também me soam inválidos. Estive olhando os comentários de alguns portais sobre este assunto, e uma maioria defendia que se HQs como Watchmen e Cavaleiro das Trevas fossem lançadas hoje em dia, encontrariam a mesma resistência dos politicamente corretos, o que é uma inverdade. 








As duas Graphic Novels foram lançadas em um contexto diferente do nosso, nos anos 80, onde o mundo vivia a incerteza de uma crise economica que atingia todos os países, além do fantasma remanescente da Guerra Fria, retratada inclusive nas duas obras.  Além disso, as propostas das histórias são diferentes das que estão sendo contadas na Batgirl. Enquanto Moore e Miller focavam em um público mais adulto, Cameron Stewart, escritor do atual arco, enfoca no público infanto-juvenil.

Podemos usar como exemplo o caso recente de Milo Manara, desenhista italiano, que teve sua capa da edição Spider-Woman #1 retirada pela Marvel Comics devido reclamações quanto a natureza sexualizada do desenho e, até, por conta da anatomia apresentada pela heroína. Apesar de também achar que o caso fora causado por uma interpretação equivoca (afinal Manara não fez com o intuito objetificar a mulher como todo, é parte de seu legado), além dos heróis masculinos também possuírem anatomia fora dos padrões comuns, é aceitável a não publicação, visto que a tendência nas novas linhas editoriais é atingir uma diversidade maior e fazer com que os heróis estejam mais próximos de nós, sejam esteticamente, em questões comportamentais e/ou orientação sexual.



Portanto, essa polêmica de fato foi desnecessária, mas a retirada da capa tem fundamento. Ou seja, no final é tudo culpa da DC mesmo... Como sempre. Apesar dos pesares, a capa de Rafael Albuquerque é irada e esse pequeno incidente não deve ser motivo pra prejudicá-lo profissionalmente, visto que ele já deixou entender em uma de suas mensagens ao público que tudo foi feito com a melhor das intenções.

[ATUALIZADO] Em entrevista ao UOL, Rafael complementa ainda mais o que havia dito em seu comunicado.

"A indústria de HQ sempre foi machista. É importante revermos nossos valores e nossas posições", afirmou. "É preciso aprender a ouvir, ter empatia por quem tem uma opinião diferente da sua. Se colocar no lugar do outro e considerar. Discussões na internet tendem a virar birras infantis, de um lado ou de outro".
"Uma revista voltada para o público feminino adolescente não deve ter uma capa pesada como essa. Independente da questão de quem está certo ou errado, a capa que eu fiz não serve a proposta que deveria ter", disse o artista. "Não acho que uma revista que tenha a intenção de elevar a autoestima feminina deva ter uma imagem que pode sugerir o contrário"

Então mais uma vez... se você gostou dessa matéria... FODA-SE! Se não gostou... FODA-SE MAIS AINDA! E até a próxima. Ou não.

Atos Finais