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25 de março de 2015

Conventionis: Capítulo 1 - Sobre o começo


 Tenha cuidado, querido. E volte são e salvo.

 Era um morro esverdeado, coberto de relva alta. Um pequeno destacamento de seis pessoas o subia de forma oficial, todos vestidos com uniformes azul-petróleo e condecorados com um punhado de medalhas no peito. Eram ao total dois elfos, três humanos e um anão, alguns armados com longas baionetas e outros com os próprios punhos. Um dos elfos, com longos cabelos negros, abaixou a ponta do quepe para se proteger do sol forte enquanto que a humana ruiva ao seu lado se virava para trás, encontrando a planície que se afastava. Um pequeno vilarejo estava encrustado um pouco antes do mar de morros, formado pelo que pareciam trezentas casas de madeira e ferro. Algumas soltavam vapor de vez em quando, e o chiado era cada vez mais baixo. O nome daquela cidade era Steamunk, uma das centenas de aglomerações isoladas que eram lembradas ocasionalmente naqueles tempos de guerra.

 A humana olhou mais abaixo no morro, fitando o trio de garotos que fora selecionado para lutar contra as hordas de Zemopheus. Tinham apenas a roupa do corpo, e dois deles estavam choramingando demais para que fossem levados a sério. Apenas meninos, pensou a oficial. Sentiu um aperto de pena por um momento, mas seu posto rapidamente a fez se esquecer disso. Se virou e continuou a caminhada, deixando os novos recrutas cuidarem de suas feridas.

 Um deles, o que não choramingava, parou abruptamente. Deixou os outros seguirem à frente, e o vento levantou seus bagunçados cabelos negros. Seu coração martelava seu peito tal qual uma britadeira, tremendo seu corpo alto e magro. Ele suspirou fundo e soltou o ar preso, os olhos negros arregalados em seu rosto fino. Se lembrou dos últimos conselhos de sua mãe mais uma vez.

  Tenha cuidado, querido. E volte são e salvo.

 Esperava obedecê-los, pensou Dalan antes de seguir em frente.




 Certo, decidi começar esse diário para não ficar maluco. Meus novos amigos estão ocupados chorando, e tenho a suspeita de que não seja saudável acompanhá-los.

 Muito bem.

 Meu nome é Dalan Kault. Nasci em Steamunk e vivi ali por dezoito anos, até o dia em que o exército da Aliança veio bater na minha porta para me recrutar, quatro dias atrás.

 Ouvi dizer que a guerra está mais apertada. Meu pai leu algo sobre uma agitação na Fronteira, mas também leu sobre um grupo de garotos que estava conquistando importância com a Aliança. Não dá pra confiar nesse tipo de coisa, mas de qualquer jeito irei descobrir o que é verdade, de um jeito ou de outro.

 Estou vendo muitas pessoas ao meu redor se desesperarem. Normal. Só que, e eu sei que posso estar maluco, estou ansioso de certas formas. Sim, eu sei que é estranho. Também é estranho escrever um diário e achar que alguém além de mim vai ler isso. Só que eu precisava de um tempo para... recomeçar. Voltar para casa melhor. Por ela.

A caneta batucou três vezes no caderno antes de continuar a escrever.

Enfim, aqui estou eu. Em uma estrada nos confins de Benitni,  preso em um desses novos carros que mesmo saindo da fábrica parecem velhos. Estamos seguindo para a academia militar de Trenzola, acho. Não é tão conceituada como a Pitchfork, mas não posso reclamar. Meus poderes não são exatamente uma coisa absurda.

 Dalan franziu a testa e levantou a cabeça. Estava na parte de trás de um caminhão militar, um aposento baixo e escuro com apenas dois bancos nas laterais. Pensou ter ouvido alguma coisa do lado de fora, mas mesmo fazendo silêncio não conseguiu escutar nada exceto os roncos de seus companheiros recrutas. Deu de ombros. Provavelmente não era nada. Apoiou as costas na cadeira e se inclinou para voltar a escrever.

 Acho que eu deveria falar sobre

 BOOOM!

 O estrondo atingiu o caminhão, derrubando-o como uma bola de papel. Os recrutas foram catapultados para um dos lados do vagão, gritando e acordando no meio do caos. Outro estrondo surgiu, e o veículo girou mais duas vezes antes de parar.

 Dalan se desvencilhou do companheiro que caíra em cima dele, o empurrando para longe. Levantou a cabeça, percebendo que as portas traseiras haviam se aberto. A noite os espiava do lado de fora, com sons de tiros e brilhos de explosões pipocando a cada segundo. O rapaz sentiu o coração bater mais rápido enquanto sua mente entendia o que estava acontecendo. Estavam sendo atacados.

 - Ah, pelos doze deuses... - Choramingou um garoto mais à frente, os olhos vermelhos se marejando novamente. Tiros começaram a varrer o exterior do vagão dos recrutas, e alguns berraram em resposta.

 Dalan não estava entre eles. O rapaz se levantou e tropeçou até a saída, saltando por entre os outros recrutas. Alguns chegaram a achar que ele fazia isso por coragem, mas era a pura covardia que o tirava daquele veículo potencialmente explosivo no meio de um tiroteio. Botou a cabeça para fora, avaliando a situação. A estrada e os morros verdes o encararam. Parecia vazio.

 - AAAAARGH! - Um elfo fardado foi arremessado para seu campo de visão, caindo de costas na estrada. A poeira ainda abaixava quando um orc sem camisa saltou nas pedras, provocando um ligeiro tremor com seu corpo grande e esverdeado. Seus músculos não eram definidos, mas eram enormes, e eram cobertos por tatuagens sinuosas e azuis. Ele puxou um machado de suas costas e gritou, descendo a arma contra o indefeso elfo. Sangue espirrou no ar, refletido nos olhos vidrados de Dalan.

 O orc em seguida se virou para ele, e, ainda vidrado, o garoto fechou a porta imediatamente.

 - OOOOORC! - Gritou para os outros no mesmo momento em que a lâmina do machado se encravava na porta. Os recrutas berraram e se afastaram para o fundo, rezando para uma miríade de deuses. Um deles tem que nos ouvir, pensou Dalan apavorado.

 Não parecia, pois o orc abriu as portas do veículo com relativa facilidade. Encarou os outros com um sorriso no rosto, completo com duas presas gigantes e amareladas que saíam da arcada inferior. Seu rosto quadrado estava empapado de sangue fresco, e ele berrou antes de entrar no vagão, respirando cada vez mais extasiado conforme os gritos se intensificavam.

 E, de repente, um tiro. Quase ninguém o ouviu no meio de toda aquela agitação, mas todos perceberam o orc cessar seu movimento. Com uma expressão surpresa, ele caiu de joelhos e desabou pesadamente no chão, revelando uma figura apoiada nas portas. Era uma humana ruiva e ofegante. O lado esquerdo de seu corpo estava banhado em sangue, e ela tentava segurá-lo miseravelmente com o braço direito.

 - O que estão esperando... - Ofegou, quase desfalecendo. - Corram. 

 O desejo foi prontamente obedecido. Os jovens dispararam para a porta, deixando a oficial deslizar para o chão. Sua arma caiu na relva, e ela ofegou de dor. Dalan a olhou enquanto corria, e deu alguns passos adiante antes de franzir o rosto e se virar.

 - Posso te ajudar? - Perguntou enquanto se agachava, olhando de relance para a área ao redor. Pareciam sozinhos.

 A mulher o encarou relutante, seu rosto pálido e sofrido. Fez uma nova careta. - Tem um kit médico dentro do vagão onde você estava, se não me engano. Eu agradeceria se pudesse trazer para mim.

 - Certo. Certo. - Ele se levantou, respirando fundo. Voltou até o compartimento caído, repleto de objetos tombados e esquecidos. As folhas em que estava escrevendo estavam aos seus pés, e ele as recolheu junto com a caneta. Nunca se sabe. Achou a maleta branca e vermelha no canto e correu até a ruiva. - Meu nome é Dalan, falando nisso. Dalan Kault. - Comentou enquanto abria o objeto.

 A oficial demorou algum tempo para responder, preferindo puxar um spray verde e aplicá-lo em seu abdômen. - Samantha. Tenente Samantha Beinnin, da Quinta Divisão de Recrutamento. - Disse por fim, um pouco extasiada. Seu ferimento borbulhava e chiava, mas não parecia mais aberto. Ela encarou o rapaz, ofegando ligeiramente. - Agradeço pela ajuda, mas é melhor que você corra, garoto. Vá para o oeste o mais cedo possível.

 - O-o que aconteceu? - Perguntou Dalan, olhando ao redor. Agora que a adrenalina estava passando, conseguia entender a gravidade da situação. Estavam bem afastados da Fronteira, em uma região supostamente segura, mas agora tinham corpos de orcs espalhados na estrada de pedra. O que estava acontecendo ali?

 Samantha suspirou, desviando o olhar. - Ainda não sei exatamente... - Confessou em voz baixa, encarando seu sangue ainda úmido na grama. - Só sei que houve um ataque em massa. Nossas linhas de defesa foram quebradas.

 Dalan ficou em silêncio apavorado. Em algum lugar do inconsciente coletivo, o medo de uma nova invasão de Zemopheus estava marcado com ferro e fogo. Já haviam sido atacado antes, havia menos de duzentos anos, e haviam passado um século sendo acuados até uma pequena faixa de terra nos Territórios Inconquistados, ao extremo oeste dos mapas. Tinham conseguido reagir e se recuperar desde então, mas...

 - Estamos mais preparados dessa vez. - Assegurou Samantha com o rosto sério, sabendo no que o garoto estava pensando. - Há uma linha de defesa secundária se formando nesse exato momento. Se você seguir para o oeste em linha reta... - Ela ficou calada por alguns segundos, mentalizando um mapa. - Deverá encontrá-la após o rio Solomon.

 - Certo... - Respondeu o rapaz, ainda pensativo. Enquanto isso a tenente se levantou, apoiando o corpo nas portas do caminhão.

 - Então corra. Avise a todos os vilarejos que encontrar no caminho. - Ela se virou para o leste, franzindo o rosto contra o vento frio. Conseguia enxergar fumaça e fogo à distância. Logo uma nova onda de ataque estaria ali. - Por que ainda não foi? - Perguntou após alguns segundos.

 - V-você vai ficar aqui? - Perguntou Dalan, se aproximando um passo.

 - Não vou a lugar nenhum com esses ferimentos, e tenho a missão de defender minha posição. Assim como você tem a sua. - Se virou para o outro, encarando seu rosto ainda infantil. Apenas meninos, pensou novamente. Eram sempre os mais jovens. - Não chegou a ser um soldado, mas ainda assim é um membro das doze raças da Aliança. Está nessa guerra tanto quanto nós.

O garoto engoliu em seco. Ela tinha razão. Podia não vestir uma farda, mas ainda era parte da Aliança. O que significava que deixar Zemopheus vencer era a mesma coisa que assinar seu óbito. Não parecia ter muitas opções.

 - Agora vá. - Reforçou Samantha sem se virar. Dalan deu as costas e começou a se afastar da estrada, se aproximando dos morros baixos. Subiu o mais próximo e olhou para trás. A tenente continuava ao lado do caminhão tombado, cercada pelos mortos. Mais à frente, ao leste, colunas de fumaças se encontravam com o céu nublado, e chamas distantes contribuíam para o clima apocalíptico. Algo de muito ruim estava vindo, pensou o rapaz, e aquele ataque era só o começo.

 Se voltou para o oeste, sentindo o coração se apertar. Não conseguia enxergar mais nenhum dos recrutas, mas uma floresta se agigantava à sua frente. Floresta de Ampleridis, nomeada pelos elfos muitos anos atrás. Tinha que chegar em Steamunk, pensou com urgência. Precisava avisá-los. Seus pais estavam lá, e...

 Diana estava lá.

 O garoto prendeu a respiração. Tinha que voltar e resolver tudo com ela. E tinha de chegar antes do exército de Zemopheus.

 Sem sequer olhar para trás, Dalan desceu o morro na direção de Ampleridis. Hora de voltar são e salvo.

Atos Finais