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24 de fevereiro de 2015

Além do Cartucho #01: O Canto Maligno dos Pesadelos


 Ora, olá vocês. Não os vi chegando.

 ...

 Ainda não consigo ver, mas isso não importa. Bem-vindos à mais nova atração do HDL, Além do Cartucho, onde eu provavelmente irei me humilhar e contar coisas desagradáveis que aconteceram comigo enquanto mergulhava em um mundo imaginário para abusar da sensação de escapismo.



O.K, isso poderia ter começado melhor. Vamos por partes. Além do Cartucho vai ser uma coluna onde eu escrevo sobre coisas que aconteceram comigo enquanto jogava videogame. Não estarei aqui para falar "nossa, como o jogo é incrível" ou "nossa, que jogo horroroso". O motivo da existência dessa coluna é contar coisas alheias ao ato de jogatina. É falar sobre a pessoa por trás do jogador, e como ela foi influenciada pelos jogos.

 Por isso Além do Cartucho. Muito perspicaz, não? Ahn, ahn? Sim, sou um gênio.

 Ah, mas quase nenhum jogo hoje em dia é em cartucho...


 CALEM A BOCA. VAMOS COMEÇAR ISSO.


ALÉM DO CARTUCHO #01
O CANTO MALIGNO DOS PESADELOS


 Iniciemos essa coluna com o produto que provavelmente mais influenciou minha infância: The Legend of Zelda: Majora's Mask. Pra quem não sabe, é o segundo jogo da série Legend of Zelda em 3D, lançado para o Nintendo 64 em 2000. E eu era fascinado por aquele jogo. Desenhava sobre ele. Pensava sobre ele. Céus, aquela fita provavelmente esteve por tanto tempo em meu 64 que deve ter havido alguma forma de simbiose. Eram tempos incríveis.

 O problema é que o jogo é um troço perturbador pra cacete. Tinham pássaros malignos que roubavam seus itens, aliens que sequestravam vacas, mãos desencarnadas que saíam do banheiro e, claro, uma maldita lua com cara de psicopata que se aproximava da Terra como um cometa do inferno.

Oi.

 No entanto, era possível evitar a maior parte dessas coisas. Você não precisava estar de olho no céu 24 horas por dia, por exemplo. Nem tinha que fazer a missão de derrotar os aliens. Só que haviam certos obstáculos que você precisava enfrentar para progredir na história. Entram os chefes.



Sério, olha pra eles. Parecem quatro cavaleiros do apocalipse, saídos da imaginação de um designer de Silent Hill bastante drogado. Temos um guerreiro africano de quatro metros com uma espada do tamanho aproximado do Universo, um touro mecânico que parece um tornado destruindo o que encontra, um peixe endiabrado que falarei mais algum dia, e duas cobras-serpentes-escorpiões-demônios com a extensão exata da BR-101 que saem da areia para te devorar.

 E como eu disse, você tinha que derrotá-los. Não havia um caminho alternativo, como uma conversa amigável regada à chá. Era uma luta ferrenha, um jogo da morte onde dois entravam e um saía. Tente imaginar isso na mente de uma criança de 7 anos. Era como se seus pesadelos saíssem de sua alma e quisessem palitar os dentes com sua espinha.

 Sim, as coisas eram mais emocionantes quando o funcionamento de um videogame era semelhante à feitiçaria de um mago. Bons tempos.

 Voltando ao assunto, lá estava eu para bater nos desgraçados. O primeiro era Odolwa. Não, desculpa. 

 MASKED JUNGLE WARRIOR: ODOLWA. 


 E devo dizer que ele não foi extremamente amigável na primeira vez que nos encontramos. Tudo começa quando você entra na sala do chefe. De início, parece tudo tranquilo. Não tem ninguém ali. Estranho. Você dá alguns passos para frente, desconfiado. O que estava acontecendo ali?

 E então começa o som.

 Parece um chocalho. Um tch-tch-tch oculto nas sombras. Seu personagem olha para os lados, o barulho se intensificando. A câmera vira para cima, mostrando o teto do aposento, tão alto que nem mesmo a luz chega até lá.

 E das trevas profundas, desce um guerreiro maligno e gigante, batendo no chão com tanta força que parece um terremoto se aproximando. Ele segura uma espada reluzente na mão direita, e um escudo triangular na esquerda. Seu rosto é um mistério, protegido por uma máscara tribal. O guerreiro se levanta, brandindo suas armas, e um texto aparece na tela para revelar seu nome. Odolwa.

 É importante dizer que nunca, nunca mesmo, fui uma pessoa considerada corajosa. Portanto, o meu eu de sete anos tinha largado o controle a essa altura. Só que o pior não tinha chegado. A música começa a tocar, e Odolwa inicia seu canto.



 MANO. QUE. PORRA. É. ESSA. O DESGRAÇADO ESTÁ TE AMALDIÇOANDO CARA. JÁ NÃO BASTA TER QUATRO METROS DE ALTURA E UMA ESPADA TÃO GRANDE QUE SEU PERSONAGEM DEVERIA ORBITAR AO REDOR DELA, ELE AINDA ARRUMA TEMPO PARA INVOCAR FEITIÇARIA VERBAL CONTRA SUA ALMA.

 COMO. ASSIM.

 Cara, a essa altura eu já tinha vontade de desligar o Nintendo 64. Só que eu estava lá, de bobeira em casa. Vamos tentar lutar, pensei aterrorizado. Por motivos óbvios eu não queria me aproximar, então comecei a atirar flechas. Piada. Ele as rebate como se fossem brisas de vento, e continua a cantar. Vamos partir para a porradaria então. Cheguei mais perto para bater com minha espada, E O DESGRAÇADO ME ATACA APENAS MOVENDO A ARMA DELE. QUE PORRA É ESSA. ELE NEM CHEGOU A BATER COM FORÇA E EU FUI JOGADO PARA TRÁS.

A partir daquele momento já estava em pânico. Odolwa tinha uma aura de trevas ao redor de seu corpo, não era possível. Como enfrentar um cara assim? Lembrem-se, não havia youtube naquela época. Eram tempos mais difíceis.

 Pensava em alguma estratégia quando notei a flor amarela embaixo do monstro. Isso significava que eu podia me transformar em um Deku, ser pequeno que parece um fungo podre, e me esconder ali. Ora bolas, parecia a saída mais sensata. Odolwa começa então a fazer acrobacias, dessa vez tentando me atacar. Como um belo herói, me transformei e fui me esconder no interior da flor. Como qualquer herói faria.

 Nisso, o chefão continuava em sua dança maligna. Ia pra lá, ia pra cá, parecia estar se divertindo. Até que ele passa bem perto da flor. Nisso, a ideia. Para os desentendidos, toda vez que o Link saía da flor, ele catapultava como um projétil para cima. Soava como um ataque? Soava como um ataque. Soltei o botão e o pequeno Deku disparou para os céus, acertando Odolwa bem no queixo. Ele se ajoelhou em dor, e todos sabem que o melhor momento para bater em alguém é quando a pessoa está no chão. Voltei à forma normal e comecei a arrebentá-lo como uma pinhata em uma festa para crianças hiperativas.

 Isso está funcionando, pensei. Que coisa boa. Até que o monstro pula que nem um feijão mexicano e vai para o outro lado. Ooook. Vamos voltar a nos esconder. Corri para a flor e esperei, mas dessa vez o chefão não veio. Ficou dançando que nem um maníaco, mas não se aproximou. Fiquei tentado a esperar para sempre, mas quando vi já tinha me catapultado para fora.

 Antes que Odolwa atacasse, esmurrei o botão de ataque. E, para minha total surpresa, funcionou. Ele caiu mais uma vez, e tentei arrebentá-lo com uma vontade recém-conquistada. É agora, pensei. Vou finalmente acabar com isso.

 E nesse momento aprendi uma lição importante sobre a vida: quando você acha que está tudo certo, ela vai puxar seu tapete. O chefão saltou para trás e começou a cantar de forma diferente, saltando e brandindo a espada. E do teto, vieram os insetos.

 Uma coisa é lutar um contra um contra o chefão. Outra é fazer isso enquanto cuida das criaturas que ele invoca. Uma horda de bichos veio para cima de mim, que se esforçava para se manter vivo. Eles atacavam sem defesa, e eu corria. E Odolwa continuava a cantar.

 Quando finalmente lidei com os bichos estranhos, ele estava preparado. Como um mágico guardando o melhor truque por último, o filho da mãe invocou uma nuvem de gafanhotos para me atacar. CARA, AS COISAS ESTAVAM PASSANDO DO LIMITE. EU JÁ ESTAVA LUTANDO AGORA CONTRA PRAGAS BÍBLICAS. COMO ASSIM.

 E nessa hora você conhece o desespero, mesmo que seja controlando um modelo 3D em um software criado por japoneses. Só havia uma escolha. Acabar logo com aquilo. Corri para Odolwa, atacando em fúria. Um ou dois ataques foram bloqueados, mas de repente ele estava no chão. Por favor, não se levante, pensei. Fique no chão. Fique no...

 Puf. Estava terminado. Odolwa gritou perante à morte, e se transformou em um belo coração. Own. E enquanto isso eu estava praticamente arfando, segurando o controle com as mãos suadas. Era isso? Venci? Venci! VIVA A VIDA! Peguei o coração e saí dali cantarolando. Tudo estava bem.

 Até Gyorg aparecer em minha vida. Só que isso... é história para outro post.

 Até mais!


Atos Finais