Novidades

28 de janeiro de 2015

[Opinião Fecal] Deuses Americanos, de Neil Gaiman

É interessante atentar-se logo de início ao fato de que Deuses Americanos tem algumas ideias que já foram usadas em Sandman. E é interessante também notar que as duas obras foram escritas pelo mesmo autor. "Nossa senhora, o cara tá safadamente fazendo a mesma coisa que já fez antes" alguns podem pensar, mas calma. Onde inicialmente seria comum achar que isso é falta de criatividade ou que isso é desgaste de conteúdo, na realidade se torna uma feliz constatação da habilidade do escritor ao nos trazer essas ideias repaginadas ou com mínimas mudanças que fazem total diferença nos contextos das histórias em questão. Ao invés da sensação de repetição, temos a sensação de brisa fresca e, ao mesmo tempo, temos a boa e estranha sensação de estar revisitando algo que nós nunca visitamos, em primeiro lugar.



Com isso dito acima, já reitero que Deuses Americanos nem de longe tem uma premissa original, mas isto também nem de longe é algo ruim. Aliás, se fôssemos tratar como algo de qualidade só obras que tivessem ideias originais, não sobraria muita coisa, não é mesmo?

Não é segredo pra ninguém que eu sou muito fã do Gaiman. Ele é um cara inventivo, que consegue criar mitologias interessantíssimas pra suas história e é considerado, não apenas por mim, como um dos melhores escritores da atualidade, conseguindo fazer acontecimentos de cunho fantasiosos parecerem mundanos trazendo uma leveza fantástica  mesmo pra coisas densas.

E agora fazendo um pequeno parênteses, essa é a grande diferença entre Neil Gaiman e Alan Moore, pra mim. Alan Moore, ao contrário de Gaiman, faz as coisas fantasiosas e densas em suas histórias parecerem ainda mais densas e fantasiosas, sempre fazendo um grande contraste com a realidade; não que um estilo seja melhor que o outro, pelo contrário, temos que agradecer por temos o melhor de dois mundos a nossa disposição.



O livro começa com Shadow, o protagonista, terminando de cumprir sua pena na prisão. Tudo que ele queria era sair logo do lugar e voltar pras pessoas que amava, pra sua vida. Quando ele estava prestes a sair dali, algumas coisas acontecem que o faz perder o chão. Fora da prisão, agora sem rumo, ele encontra um cara chamado Wednesday que faz uma oferta de serviço muito tentadora, porém igualmente estranha. Contar mais além disso já pode ser considerado spoiler mesmo para coisas que acontecem logo nas primeiras páginas, pois, creio eu, que é muito bom ter a surpresa inicial estando com as mesmas expectativas de Shadow.

O mote básico do livro é: os deuses vieram a América na esperança de ganharem força através da fé, oração, adoração e sacrifícios do povo, só que os tempos são outros e esses deuses antigos começam a ficar cada vez mais fracos - alguns até têm que sobreviver de maneiras não muito legais. Com isso, novos deuses começam a surgir a partir do interesse da sociedade em outras coisas; deusa da mídia, deus da internet, deus dos cassinos, etc. Esses são alguns exemplos, acredito eu que já dá pra se ter uma ideia. Enfim, os novos deuses têm tretas com os antigos  e vice-versa , e parece que há uma guerra iminente entre eles. Tem ainda pequenas histórias entre os capítulos, essas são contadas por meios diferentes  como um conto antigo, um texto de um personagem específico do livro, como uma pesquisa e como algo contado de uma forma mais tradicional  que expandem mais do "mundo" criado, dando informações adicionais se passando desde 100 anos atrás como também a vários quilômetros de distância dos acontecimentos atuais.

Neil Gaiman não tem pressa em contar sua história. A trama vai se desenrolando calmamente, sem nunca correr com algo, sempre fazendo as situações se desenvolverem, havendo preparação e contextualização bem presentes durante toda obra, mas isto também não quer dizer que nada acontece. O livro tem muitos momentos que acontecem centrados em si mesmo, sendo providos entre os diálogos dos personagens, constatações sobre alguma coisa, sonhos e corriqueirices.
Ao fazer isso, Neil Gaiman dá uma vida à obra, torna a narrativa fluida e despretensiosa aliando-a a uma ótima escrita igualmente fluida, comunicativa e contemporaneamente esperta.

Tudo presente no miolo de Deuses Americanos (e aí incluso o comunicado inicial, as frases que dão início a cada capítulo e até o agradecimento final) estão lá com o propósito de se contar uma história, para se passar uma mensagem e não fazer punhetação desnecessária, sem masturbação pra própria escrita e obra.

Eu fiz o uso de uma palavra acima que, ao que parece, muita gente não a usaria para adjetivar Deuses Americanos. Lendo algumas análises após ter terminado minha leitura, vi muita gente classificando o livro como "uma das mais pretensiosas e controversas obras de Neil Gaiman" e, sinceramente, não foi essa a interpretação que tive. Primeiramente, de controverso só a subjetividade da aceitação do final, fora umas passagens acidamente críticas, porém essas fazem o mesmo tom do restante do livro. Segundo, chamar esse livro de pretensioso (nem que não tenha a intenção de soar depreciativo) ou é não conhecer o autor, ou é não ter prestado muita atenção na leitura. Gaiman está na sua praia, escrevendo conforme seu estilo; o livro não tem nenhuma trama muito grandiosa, procurando se focar nas pequenas coisas da vivência. O pretensiosismo talvez possa se encaixar na descrição dos Estados Unidos, uma vez que os personagens ficam presentes em diversos pontos do país ao decorrer da trama. Mas isso é fruto de um trabalho de pesquisa engajado, e apesar da viagem pelos EUA ser parte fundamental, não podemos classificar o livro como um todo apenas por causa de um elemento em sua narrativa.

Não há problema nenhum em pretender, aliás. Acredito que a partir do momento em que um ser tem o desejo de criar algo, este ser já tem alguma pretensão. Entra em ação, então, uma lógica reversa. Se tudo pretende ser algo, então nada pretende, pois serão iguais neste quesito. Entendem o ponto? Não é qualquer coisa, esteja eu familiarizado ou não, que pode ser definido assim, porque se não, tudo pode e o termo acaba perdendo o sentido.



Um fator no livro que corrobora para toda construção da coisa mundana, natural e humana é sua falta de gênero. Há road trip, aventura, ficção, humor e uma pitada de terror. Há também romance, e o Neil Gaiman é um dos caras que mais sabe fazer lirismo sem parecer piegas e forçado. É um romance adorável de se ler, não vergonhoso.

Essa falta de gênero de forma alguma traz uma falta de identidade, ela dá força a uma das filosofias da obra. A nossa vida como um todo não tem uma classificação definitiva, talvez uma característica mais predominante do que a outra, mas não há totalidade. Então assim como a vida, assim, por sua vez, como o mundo, somos moldados pelas nossas diversas experiências pessoais, que certamente não são iguais entre si e nem iguais comparadas a de outras pessoas, logo vivenciamos vários momentos de caráter diferente, mas que formam uma só história, a nossa história. E neste caso, a história de Shadow, dos deuses e dos diversos personagens que permeiam o livro.

Neil Gaiman brinca com os clichês, dá explicações sobre as coincidências convenientes, subverte alguns conceitos da Jornada do Herói e dá dubiedade no conceito de bom e mau quando já achávamos que estava tudo definido.



Os deuses podem representar arquétipos de atitudes humanas comuns: o velho que viu seu tempo passar e tenta de todo custo reviver os momentos de glória, apesar de claramente estar cansado de tudo aquilo; a mulher rica que por fora é bem resolvida, mas por dentro sofre por ninguém conhecê-la além da superficialidade; o adolescente gordinho arrogante que disfarça sua carência achando-se o melhor, o dono do mundo; e por aí vai. Deuses Americano fala de deuses para falar de nós.

Deuses Americanos ao mesmo tempo que exalta o ser humano, também o critica.

Confesso que não leio o quanto eu quero, sobretudo, confesso que não li tantas obras consideradas clássicas pelo pessoal da ~alta literatura~ o quanto eu gostaria, então, no alto da minha ignorância, eu confesso também que acho Deuses Americanos um grande clássico moderno.

Nota? 10 Panquecas Gigantes.

Atos Finais