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16 de novembro de 2014

Opinião Fecal: Death Note (SPOILERS!)

Death Note desde o primeiro minuto de exibição, em sua abertura, nos mostra algo que promete ser grande em ideologia, referências bíblicas sobre o fruto proibido a torto e a direita, a letra da música realmente dizer que uma forma de pensar será passada - a criação de um novo mundo será feita pelas mãos de um Deus, um Deus humano. Promessa é uma palavra que define muito bem o anime, a promessa é feita, o conceito é lançado, e tudo parece ir ganhando forma e consistência, isso pelo menos no início, porém então... A promessa nunca é cumprida, e o modelo montado desaba.

Para quem não conhece ou não se importa, Death Note é um caderno (que, obóviamente, dá nome ao anime) pertencente a um Shinigami (deus da morte) que o deixou cair no mundo dos humanos, então, um jovem e inteligentíssimo rapaz o encontra, e ao ler as regras em sua contra-capa, descobre que o caderno possui um poder de matar pessoas. Coincidentemente, este rapaz tem um pensamento que algumas pessoas simplesmente não merecem viver, que ou elas são o peso morto ou os causadores diretos da âncora que segura a sociedade impedindo-a de prosperar. Como Neil Gaiman já nos avisava em Livros da Magia: nomes têm poder; para matar a pessoa, o proprietário do caderno tem que escrever o nome da pessoa neste caderno, mas não é só isso, o proprietário tem de conhecer, também, o rosto da pessoa, e tê-lo em mente na hora de escrever o nome, assim evitando matar pessoas de mesmo nome e sobrenome. Depois disso feito, se a causa da morte não for especificada, dentro de 40 segundos, a pessoa que teve o nome escrito morrerá de um ataque cardíaco.

Sem essa regra, imagina o tanto de pessoas que seriam mortas simplesmente escrevendo "João da Silva"

Não cabe a mim aqui ficar explicando cada regra - tem regras pra caralho. Mas saiba, pelo menos, que o Shinigami com o caderno perdido deve ficar perto do humano que tem a posse desse caderno no momento, e só pessoas que tocam no seu caderno podem vê-lo. Há também o trato que permite ao humano ter o poder d'Os Olhos de Shinigami, que permite ao humano ver a idade e tempo de vida das pessoas apenas olhando-as, porém, para isso, o humano tem de abdicar de metade de seu tempo de vida, ou seja, numa matemática básica, se o humano está previsto para viver até seus 50 anos, com o acordo, o humano só vivera até os 25.

Inclusive, foi uma saída inteligente por as regras aparecendo nos intervalos.

Mas voltando... Este rapaz, cujo nome é Light Yagami, imediatamente começa a utilizar o caderno para limpar o mundo e criar uma sociedade puramente boa, onde o mau não existe e não seria capaz de procriar. Então Light começa a matar criminosos famosos por ataque cardíaco, e as pessoas, e a polícia, começam a achar que esse é um trabalho de um assassino só, que de alguma maneira está julgando os bandidos, e era esse o plano de Light, ele queria ser conhecido pelo mundo. A população começa a chamá-lo de Kira (palavra que lembra Killer) e então um famoso detetive chamado L pede ajuda ao governo japonês para resolver o caso numa reunião da Interpol.

No começo, Death Note chega até a impressionar. Os primeiros episódios são recheados de diálogos inteligentes, de momentos sagazes e de deduções que você realmente acredita ser esperta. Em seu início, o personagem é bem conservador em suas atitudes, então quando, em poucos momentos, ele se revela a outras pessoas, geralmente são esses os momentos mais marcantes, justamente por esse conservadorismo, como no momento da morte da esposa do Ray Penber, ou quando Light finalmente recupera suas memórias depois de ter sido "provado" inocente, ou quando L morre.

Muito bonito esse momento do anime

O problema é que a história praticamente não vai para a frente, parece que os criadores, na cara de pau, arrastam o conteúdo. Há um arco todo bastante desnecessário, que ele, depois de toda enrolação, é resolvido em dois episódios. A história não cresce da forma que nós esperamos no começo, o anime fica os seus 37 episódios numa trama policial onde o Kira tem que ficar num jogo de gato e rato com os investigadores, inclusive depois que o L morre, que é quando aparece seus aprendizes. Falemos deles depois.

Mas antes disso, o anime já havia caído de qualidade. Os diálogos inteligentes desaparecem, o adicionamento de um segundo Kira é muito sub-utilizado, a técnica narrativa de sabermos o que os personagens estão pensando começaram a funcionar muito mais como apenas um explicativo do que estava acontecendo do que realmente um aprofundamento da personalidade deles, há uma mudança de personalidade do Light quando ele perde a memória, e o massavéio, do nada, começa a aparecer com muita frequência, e é um massavéio bastante destoante do que foi apresentado antes no anime. A própria mudança de abertura já mostra como o tom mudou, como o foco foi perdido com o decorrer dos episódios, apenas comparem:





Quando tem essa queda brusca de qualidade, o anime tem espasmos que nos fazem pensar que vai voltar a ser bom, mas são só espasmos, bons momentos pontuais e só, o estrago já estava feito.

No começo deste texto disse que "promessa" é uma palavra que define bem o anime.
E é.
No começo pensávamos que ia haver a discussão moral: matar é errado, mesmo que seja para um bem maior? Bem, vou dar o pior spoiler da série agora: NÃO HÁ DISCUSSÃO NENHUMA! Light mata bandidos e pessoas que o atrapalhem a criar o seu novo mundo, mas os policiais são contra apenas porque "matar é errado".
E só.
Apesar de eu pessoalmente discordar dos pensamentos de Light, o conflito ideológico é extremamente raso, genérico e, com o tempo, irritante. Na reta final temos o seguinte diálogo entre Light e Near, um dos sucessores de L. "Eu diminui a taxa de criminalidade em 70%. As guerras acabaram", disse Light, e então Near responde "Você não passa de um serial killer". Numa tentativa de enfodecer um personagem completamente desnecessário e ridículo, eles destroem qualquer tipo de redenção que poderiam ter no final, UMA resposta bem dada, e não uma frase de efeito fuleira teria sido suficiente para pelo menos, reavaliar a mensagem do anime.

Falando nisso, Near, de todos os personagens unilaterais e dispensáveis que Death Note tem, consegue ser o pior. Os roteiristas tiveram, certamente, Síndrome de Bátema. Near tira conclusões da própria bunda, Near sabe de coisas que, pelo contexto imposto pelo anime, ele não deveria saber, Near é uma criança, e o humano mais inteligente do planeta Terra, mais inteligente que todos, todos os adultos! Não preciso nem citar o quanto é uma merda utilizar o artifício da criança gênio, certo? Já o Mello, um personagem que é legalzinho, ele é impulsivo e parte mais para ação, diferente de todos os embates que Kira teve em toda série.

Ai, mas que GOOOOORRDAAAA

Até agora não cheguei a falar de furos de roteiro e inconsistências que, pra quem prestou um pouco de atenção, incomodaram. Do nada aparecer um novo Shinigami, a existência de um terceiro caderno que aparece do nada e não tinha sido mostrado na série até agora, o pai do Light morrer (que era um chefe de polícia, inclusive) e não mostrarem nada de como a família dele reagiu, personagens tendo atitudes controversas para o "bem" do roteiro, etc. São coisas que acabam evidenciando uma falta de cuidado maior, que mina qualquer chance de haver uma maior complexidade.

Quando Near finalmente pega o Kira, Light pira. É normal esperar isso de um gênio que teve seu plano falhado, mas o que eu disse de ser o conservadorismo que faz as cenas explosivas serem boas se aplica perfeitamente ao final. Não há conservadorismo nenhum de Light, ele começa a dar desculpas desesperadas, e transformam o personagem num bobalhão, isso se aplicando também a outro personagem que o estava ajudando. Nada me faz pensar diferente que isso foi feito como uma forma de transformar Near no personagem fodão e certo, enquanto nos mostra Light como um cara completamente errado, mesmo tendo o diálogo que citei acima, assim não precisando trazer discussão alguma.

A solução final foi forçada, mas a conclusão em si chega até a ser boa, mas não apaga, nem ludibria a memória acerca do que aconteceu pra chegar até ali.

Eu posso até ter garoteado, mas só foi depois de assistir tudo que percebi que o anime é um Shonen (classificação que os japas usam pra materiais redirecionados a um público mais jovem), APESAR de ser para maiores de 18. Sem querer ser preconceituoso, mas depois de saber desta informação eu meio que entendi o porquê do anime ter seguido o caminho que seguiu...

Se você teve preguiça de ler tudo isso, vou deixar a nota e um vídeo que explica perfeitamente o anime inteiro.

Nota: 5,5627/10 Panquecas Gigantes 

Vídeo:


Atos Finais